Você, como profissional de Educação Física, sente-se 100% seguro ao prescrever o treinamento de força (musculação) para um aluno com hipertensão? Sabe manejar as variáveis de treino para garantir que o exercício seja um aliado, e não um risco? A ciência já evidenciou que o treinamento de força isolado é capaz de reduzir a pressão arterial sistólica e diastólica em pré-hipertensos e hipertensos (estágios 1 e 2), além de melhorar o perfil lipídico, metabolismo da glicose e a variabilidade da frequência cardíaca.
No entanto, a grande dúvida reside na segurança hemodinâmica durante a execução. Não basta saber que a musculação “faz bem”; é preciso dominar as variáveis para evitar picos pressóricos perigosos durante o exercício físico, por exemplo.
1) Musculação e hipertensão: O Ponto de partida – Monitoramento e contraindicação
Segurança não se negocia. O primeiro passo é sempre medir a pressão arterial antes de iniciar a sessão. Segundo a Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial, o exercício deve ser contraindicado se o paciente apresentar valores em repouso a partir de 160/105 mmHg. Negligenciar essa medição inicial é colocar a integridade do seu aluno em risco. Lembre-se durante o esforço, a pressão irá subir (após o exercício ocorre a famosa hipotensão “pós-exercício”). Se a pressão estiver elevada antes do exercício, a prática do exercício pode ser contra-indicada. Vai atender pessoas com hipertensão ou pré-hipertensão? É sua obrigação e responsabilidade medir a pressão arterial antes do exercício físico.
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2) Intensidade vs. volume: O mito das “muitas repetições”
Um erro comum nas academias é acreditar que o paciente com hipertensão deve treinar com carga muito leve e muitas repetições (15, 20 ou 25 ). A ciência nos mostra o contrário. Estudos comparando intensidades de 40% vs. 80% de 1RM, com medição de pressão intracatéter (padrão-ouro), revelaram que a intensidade de 80% de 1RM foi mais segura hemodinamicamente.
Por que isso acontece? O fator que mais eleva a pressão durante o exercício é o tempo de tensão. Ao fazer muitas repetições com carga leve, o tempo de execução é maior, o que gera um aumento acumulado da pressão arterial. Portanto, é mais seguro trabalhar com intensidades moderadas a altas e menos repetições (ex: 6 a 8), desde que, e este ponto é crucial, o aluno não chegue à falha concêntrica.
3) O intervalo: O momento da recuperação hemodinâmica
O intervalo entre as séries é uma variável estratégica. Recomendo o uso de intervalos moderados a longos (90 a 120 segundos).
- No intervalo curto, a pressão não tem tempo de retornar à linha de base antes do próximo estímulo, gerando um efeito de “empilhamento” pressórico.
- Com intervalos maiores, permitimos que a pressão caia antes de um novo pico, mantendo a sessão dentro de margens de segurança.
4) Musculação e hipertensão: A importância da adesão medicamentosa
O medicamento atua como um “escudo” protetor. O uso de anti-hipertensivos ajuda a atenuar os picos pressóricos durante o esforço. Sempre questione seu aluno se ele tomou a medicação conforme a prescrição médica. Muitas vezes, um valor elevado antes do treino é reflexo de um esquecimento da dose diária, o que exige cautela redobrada do treinador. Neste sentido, o personal precisa conhecer o básico sobre farmacologia aplicada ao exercício físico.
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5) O perigo de treinar até a falha concêntrica
Um dos pontos mais críticos na prescrição para pessoas com hipertensão é o controle da proximidade da falha. Embora no fisiculturismo ou no treinamento para hipertrofia de alto rendimento a falha seja uma estratégia (dentro de um planejamento), na musculação terapêutica ela representa um risco desnecessário. Quando o aluno atinge a falha concêntrica, aquele momento em que não consegue mais completar a fase de subida do peso, ocorre um fenômeno chamado Manobra de valsalva involuntária. Esse bloqueio da glote, somado ao esforço extremo e ao recrutamento massivo de unidades motoras, provoca um aumento exponencial e súbito da pressão arterial e do duplo produto (frequência cardíaca x pressão arterial sistólica). Para uma pessoa com hipertensão, esse pico de estresse cardiovascular pode ultrapassar a capacidade de autorregulação do organismo, aumentando o risco de eventos adversos. Portanto, a estratégia mais segura e baseada em evidências é trabalhar com repetições na reserva, parando a série 2 ou 3 repetições antes da falha total.

Referencias
1.Brandão AA, Rodrigues CIS, Bortolotto LA, Armstrong AC, Mulinari RA, Feitosa ADM, Mota-Gomes MA, et al. Brazilian Guidelines of Hypertension – 2025. Arq Bras Cardiol. 2025; 122(9): e20250624. doi: 10.36660/abc.20250624.
2.Jones DW, Ferdinand KC, Taler SJ, Johnson HM, Shimbo D, Abdalla M, et al. 2025 AHA/ACC/AANP/AAPA/ABC/ACCP/ACPM/AGS/AMA/ASPC/NMA/PCNA/SGIM Guideline for the Prevention, Detection, Evaluation, and Management of High Blood Pressure in Adults: A Report of the American College of Cardiology/American Heart Association Joint Committee on Clinical Practice Guidelines. J Am Coll Cardiol. 2025;14: 152: e114–e218. doi: 10.1161/CIR.0000000000001356.3. Ohya Y, Sakima A, Arima H, Fukami A, Furuhashi M, Ishida M, et al. Key highlights of the Japanese Society of Hypertension Guidelines for the management of elevated blood pressure and hypertension 2025 (JSH2025). Hypertens Res. 2025; Online ahead of print. doi:10.1038/s41440-025-02331-8.
FAQ
Conforme a diretriz brasileira, se o aluno apresentar valores de 160 mmHg (sistólica) ou 105 mmHg (diastólica) em repouso, o treino deve ser suspenso naquele dia.
Porque isso reduz o tempo de tensão muscular. Quanto mais tempo o músculo fica contraído (como em séries de 20 repetições), maior é a oclusão vascular e, consequentemente, maior o aumento da pressão arterial sistólica durante a série.
Não é recomendado. O treinamento até a falha concêntrica eleva drasticamente a pressão arterial e o risco cardiovascular durante a execução. O ideal é trabalhar com uma margem de segurança, parando algumas repetições antes da falha.
Sim. A musculação isolada é uma ferramenta poderosa para o controle da hipertensão. Ela promove adaptações crônicas que auxiliam na redução da pressão arterial de repouso e na melhora de outros marcadores de saúde, como a glicemia e o perfil lipídico.
Para maior segurança, utilize intervalos de 90 a 120 segundos. Isso garante que a pressão arterial tenha uma queda significativa entre os estímulos, evitando picos excessivamente altos ao longo do treino.