Musculação na hipertensão ainda é tratada como algo “complementar” na nova diretriz brasileira de 2025. Esse, na minha visão, foi um erro conceitual importante.
Quando li a nova diretriz brasileira de hipertensão (2025), confesso: fiquei inquieto. Não pela qualidade geral do documento (que está muito bem estruturado) mas por um detalhe que, para mim, representa um grande retrocesso. A musculação, ou treinamento resistido (TR), foi novamente colocada no lugar de coadjuvante (chamaram de complementar), enquanto o exercício aeróbio segue como o grande protagonista do tratamento não farmacológico.Como alguém que pesquisa, ensina e orienta alunos no campo da saúde, eu não consegui simplesmente aceitar essa classificação passivamente (tanto que escrevi um “comment” para o editor chefe e será publicado em breve). E não falo apenas como pesquisador, mas como alguém que acompanha a literatura científica diariamente e vê, com clareza, que o mundo inteiro caminha em outra direção.
O que a nova diretriz de hipertensão não quer enxergar?
Nos últimos anos, organizações como AHA, ACC e a Sociedade Japonesa de Hipertensão revisaram suas recomendações e colocaram o treinamento resistido lado a lado com o exercício aeróbio (sem hierarquia), sem “complementar”. Ou seja, as evidências sobre musculação na hipertensão são hoje tão consistentes quanto as do exercício aeróbio, segundo diretrizes internacionais atualizadas.
Essas diretrizes afirmam, de forma explícita, que:
- o TR reduz pressão arterial sistólica e diastólica;
- melhora a função vascular;
- promove cardioproteção;
- aumenta força e massa muscular;
- melhora perfil glicêmico e lipídico;
- reduz gordura visceral;
- reduz risco de mortalidade.
Ou seja, o TR é eficaz para tratar hipertensão e ainda oferece uma série de benefícios que o aeróbio, sozinho, não consegue entregar.
Mesmo assim, a nova diretriz de hipertensão (2025) ainda considera complementar. Complementar por quê? Complementar até quando?
Reduzir a musculação ao efeito agudo da pressão arterial é um erro conceitual!
Um dos problemas da leitura tradicional das diretrizes é que elas olham para o exercício físico de forma reducionista. É como se o único critério importante fosse a redução da pressão arterial (apesar de ser importante, não é a única variável).
O exercício físico é muito mais que isso. O treinamento resistido:
- previne sarcopenia,
- melhora equilíbrio e reduz risco de quedas (altamente relevante para idosas com hipertensão),
- aumenta densidade mineral óssea,
- melhora sensibilidade à insulina,
- Reduz a inflamação crônica,
- Melhora potência, força e autonomia funcional.
Se queremos tratar hipertensão na vida real, e não apenas nos números do esfigmomanômetro, precisamos considerar o corpo como um sistema integrado e o TR atua justamente nessa integração.

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E quanto às limitações osteomusculares? A diretriz não levou isso em conta
Outro ponto que me chamou atenção foi a falta de sensibilidade para a realidade clínica das pessoas com hipertensão arterial.
Pense em quantos pacientes com hipertensão têm:
- artrose,
- dor lombar,
- obesidade,
- limitações articulares,
- dificuldade de caminhar longas distâncias,
- falta de condicionamento aeróbio.
Para essas pessoas, exigir que o exercício aeróbio seja obrigatório não faz sentido.
Muitos desses pacientes não conseguem fazer caminhadas contínuas ou treinos intervalados, mas conseguem, perfeitamente, realizar musculação com progressão controlada e sem dor.
Então por que não colocar musculação como componente obrigatório também?
Por que limitar a ferramenta que é justamente a mais acessível e segura para grande parte da população?

Meu posicionamemto e meu recado para você
Depois de analisar a nova diretriz brasileira, revisitar referências internacionais e refletir sobre meus próprios anos de pesquisa e prática, minha conclusão é simples:
– Quando falamos de musculação na hipertensão, o treinamento resistido não é complementar, ele deve ser tratado como obrigatório.
– Aeróbio e musculação devem caminhar juntos, o famoso treinamento combinado.
Se o seu objetivo é melhorar saúde, controlar pressão, ganhar força, viver melhor e envelhecer com autonomia, a receita é clara:
Faça musculação e exercício aeróbio.
Os dois. Sempre que possível.
Essa é a forma mais eficiente, mais segura e mais cientificamente fundamentada de tratar e prevenir hipertensão.
E se um documento diz o contrário, eu respeito, mas não concordo

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Referências
1.Brandão AA, Rodrigues CIS, Bortolotto LA, Armstrong AC, Mulinari RA, Feitosa ADM, Mota-Gomes MA, et al. Brazilian Guidelines of Hypertension – 2025. Arq Bras Cardiol. 2025; 122(9): e20250624. doi: 10.36660/abc.20250624.
2.Jones DW, Ferdinand KC, Taler SJ, Johnson HM, Shimbo D, Abdalla M, et al. 2025 AHA/ACC/AANP/AAPA/ABC/ACCP/ACPM/AGS/AMA/ASPC/NMA/PCNA/SGIM Guideline for the Prevention, Detection, Evaluation, and Management of High Blood Pressure in Adults: A Report of the American College of Cardiology/American Heart Association Joint Committee on Clinical Practice Guidelines. J Am Coll Cardiol. 2025;14: 152: e114–e218. doi: 10.1161/CIR.0000000000001356.
3. Ohya Y, Sakima A, Arima H, Fukami A, Furuhashi M, Ishida M, et al. Key highlights of the Japanese Society of Hypertension Guidelines for the management of elevated blood pressure and hypertension 2025 (JSH2025). Hypertens Res. 2025; Online ahead of print. doi:10.1038/s41440-025-02331-8.
FAQ
Sim. O treinamento resistido (TR) reduz pressão arterial sistólica e diastólica, melhora a função vascular e contribui para adaptações cardiometabólicas importantes. A literatura internacional é clara: o TR é tão eficaz quanto o exercício aeróbio no controle da hipertensão.
Isso ocorre por uma visão ainda tradicional, centrada quase exclusivamente no efeito agudo e crônico da pressão arterial. Entretanto, essa visão é limitada e não considera os efeitos globais que o TR exerce sobre força, massa muscular, glicemia, lipídios, gordura visceral e funcionalidade. Por isso essa classificação tem sido criticada.
Sim, desde que supervisionado, com carga adequada, cadência controlada e progressão gradual. A musculação costuma ser mais confortável para pessoas com limitações osteomusculares e com baixas reservas aeróbias.
A recomendação ideal não é substituir, mas combinar. O treinamento combinado (TR + aeróbio) oferece adaptações superiores para saúde cardiovascular, composição corporal e funcionalidade. Porém, se o paciente não consegue fazer aeróbio por dor, obesidade, fadiga ou limitações articulares, a musculação já é uma estratégia extremamente eficaz.
Ótima informação